Olho no GPS e subi, aproximadamente, 500 metros, desde que saí de Ouro Preto. Isso em 4,5 km. Começo puxado, praticamente todo em subida. Mas agora melhora, eu penso. Paro um pouco, bebo água. O clima ainda está frio nesta manhã de Julho. Podia estar em casa, na beira da praia, mas estou em cima de uma bicicleta no primeiro de 8 dias em que pretendo completar a Estrada Real. De Ouro Preto à Paraty.
Estou descansando e alguns ciclistas param por ali também. Conversamos um pouco. Neste momento eu posso pegar uma trilha que me leva a São Bartolomeu ou seguir pela estrada. O caminho oficial segue pela trilha. Meus amigos me informam que a trilha está bem ruim e que não vale a pena. Nos despedimos, eles seguem e eu pondero se escuto eles ou sigo a trilha. Penso no caminho inteiro que tenho a seguir neste dia e nas outras trilhas que também terei que passar. Acabo optando por seguir pela estrada até São Bartolomeu e de lá voltar para o caminho oficial.
Sigo por uma estrada de terra larga e em ótimas condições. Começa com uma forte descida. Muitas árvores dos 2 lados da estrada deixam o clima fresco, sinto um pouco de frio. Após a descida sigo por um leve sobe e desce. Sem muita demora chego a São Bartolomeu. Vilarejo bem pequeno, paro para mais uma água e um pouco de descanso.
De volta ao caminho original da Estrada Real, subo na bike e continuo a estrada, meu destino agora é Glaura. Vou seguindo cruzando por fazendas, com alguns trechos curtos de mata. Chego a um ponto da estrada em que preciso sair à direita e entrar em uma trilha. A mata está bem fechada e sem caminho demarcado. Vou empurrando a bike entre a vegetação pelo que acho que é a trilha. O GPS começa a apitar e percebo que saí do caminho que devia seguir. A trilha segue pela direita, mas tem um rio, e eu não consigo atravessar neste ponto. Volto todo o caminho que já fiz empurrando, abrindo espaço entre a vegetação. Por sorte estou de calça e com camisa de manga comprida. Chegou a um ponto onde percebo que há uma picada saindo pela direita, tudo muito suave. Não devem passar muitas pessoas por aqui. Sigo essa trilha e atravesso uma área bem molhada. Imagino ser algo que se transforma na água mais abundante que vi do outro lado, enquanto estava no caminho errado.
De volta ao caminho certo, sigo empurrando a bike entre a vegetação, abrindo caminho com os braços. Muito mato em volta e muitos cipós. Entro em uma espécie de vala e o caminho melhora. Agora estou subindo levemente. Passo por baixo de troncos e sigo subindo. Sigo nesta situação por, aproximadamente, 1 km. De repente, entro um pasto. O pasto está roçado e não tem nenhum caminho à vista. Olho o GPS e traço mais ou menos o rumo que devo seguir. Progrido bem devagar. Estou no topo do pasto, que é uma colina, e desço seguindo à minha direita. A todo momento tento encontrar algo que pareça uma trilha ou o caminho a seguir, mas não encontro. De tempos em tempos olho o GPS para ver se estou no rumo certo. Ando mais um pouco, o pasto acaba e a trilha volta.
Entro na trilha, que segue por entre as árvores. A trilha é tranquila e consigo pedalar sem problemas. Logo a frente um barranco à beira de um rio. Vejo a trilha seguindo pelo outro lado do rio. O rio é raso, não será problema atravessá-lo. Desço da bicicleta, tiro o meu tênis e atravesso o rio para ver se é todo raso mesmo. Volto e vou descendo o barranco empurrando a bicicleta. Atravesso o rio. Coloco a bike na trilha, paro, sento, bebo mais água, coloco o tênis e descanso. Subo na bicicleta, sigo até o final da trilha, que sai em uma rua de paralelepípedo, sigo mais um pouco e estou na Praça de Glaura.
Paro em frente a igreja, do outro lado da rua. Em frente a uma casa em uma área bem sombreada. Desta vez faço um lanche, com os sanduíches que preparei pela manhã. Olho o GPS e confirmo que o meu progresso foi muito lento nestes 28 km que pedalei até aqui. Me sinto bem cansado. Começo a pensar em como vim parar aqui. Porque troquei a praia e o calor para ficar em cima de uma bicicleta por várias horas e por vários dias. Eu sou ativo, estou sempre andando de bicicleta, remando, correndo, caminhando. Mas começo a pensar que dei um passo maior do que as pernas. Eu só tenho 1 semana de férias e resolvi fazer uma pedalada de 760km em 8 dias. Pondero bastante. Chego a conclusão de que sou meio impulsivo. Após o descanso, subo na bicicleta e sigo o meu caminho.
Agora meu destino é Santo Antônio Leite. Vou dividindo o caminho em pequenas partes, para parecer mais fácil. Costumo fazer isso em trajetos longos, seja pedalando, remando, caminhando. Dividir para conquistar. Me sinto melhor assim. Focar na próxima pequena tarefa me ajuda. Sigo pelo asfalto, por praticamente o caminho todo. Após um bom trecho em asfalto chego em Cachoeira do Campo. A cidade é grande e com bastante movimento, ando pelo acostamento da estrada. Cruzo a cidade e saio sentido Santo Antônio Leite. Mais alguns quilômetros e algumas subidas e descidas, finalmente chego.
Procuro um lugar para almoçar e decido passar a noite por aqui. Eu queria que o dia fosse mais longo, mas estou cansado e assustado. Saio a procura de um lugar para dormir. Não é fácil encontrar, bato em 4 lugares antes de encontrar um que possa me receber. Encontro uma ótima casinha, um pouco afastada do centro. Entro, tiro as bagagens da bicicleta. Tomo um banho. Lavo a bicicleta, lubrifico. A noite está começando a cair e já me recolho. Como o dia hoje foi mais curto do que esperava, amanhã preciso compensar este tempo.
Falo com a família, leio um pouco e me preparo para descansar e levantar cedo para render no dia de amanhã. Enquanto não caio no sono, penso se eu estava preparado para entrar em uma empreitada dessa. Minha primeira cicloviagem e fico um pouco inseguro. Rapidamente adormeço.
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Rodei um pouco mais da metade do que tinha programado para o primeiro dia. No segundo acordei mais disposto e com o corpo já começando a se acostumar. O resto da viagem seguiu sem nenhum problema, é incrível como nosso corpo se adapta rapidamente às necessidades. Acabei não completando todo o trajeto, fui só até Passa Quatro. Cheguei lá no sábado e a Fernanda foi ao meu encontro para passar o final de semana. As crianças estavam com a avó, pois estavam de férias e todo o tempo que tive de férias, não vi a Fernanda. Por isso decidimos passar o final de semana juntos.