Estou com um amigo em uma trilha, super íngreme, e empurrando a bicicleta do jeito que dá, muitas raízes e troncos no caminho. Olho para trás e o Alison está vindo, reparo a cara dele e vejo o cansaço, imagino como está a minha. É verão e o calor, junto com a umidade estão sufocantes. Estamos há mais de 8h nessa atividade e ainda faltam, aproximadamente, 25 quilômetros para chegar de volta em Paraty. Olho para cima e não vejo o fim da trilha. A perna queima. O suor escorre. Começo a pensar em porque resolvi fazer esse caminho.
Tudo começa há alguns meses atrás, quando eu vi um segmento de bicicleta no Strava, que cruzava todo o saco do mamanguá. Para mim, um segmento no Strava, não é só uma linha no mapa, é um chamado. Uma oportunidade de explorar. E esse não foi diferente. O saco do mamanguá, na região de Paraty, é um lugar muito singular da costa brasileira, é uma espécie de fiorde (tecnicamente é um RIA, por ser mais raso e não ser da era glacial), cercado por montanhas e florestas densas. Ele tem um comprimento de 8 km e uma largura de 2 km. É um lugar muito visitado, mas todos os turistas vão de barco, e ir de bicicleta seria uma aventura e tanto.
Conversei com 2 amigos que estão morando em Paraty há mais tempo do que eu, e, com certeza, já fizeram esse caminho. Um deles foi o Alison. O Alison tem uma empresa que faz passeios de bicicleta pela região, a sou + bike Paraty, e conhece bastante as trilhas por aqui. Conversamos um pouco e ele me passou algumas informações. Algum tempo depois ele falou que queria voltar lá e me chamou, mas na época eu não pude.
Uma quinta feira qualquer, eu estava saindo do mercado, e esbarro com ele, e, combinamos de sair no sábado para fazer essa empreitada. Há algum tempo que não pedalo consistentemente, mas resolvi aceitar o desafio mesmo assim. Conversamos sobre o que levar e como fazer. Como tenho um problema em fazer as coisas pela metade, dei a ideia de sairmos de Paraty e chegarmos em Paraty pedalando, isso adiciona 50 km ao percurso. Como o Alison gosta também, fechamos de fazer assim. A parte interessante mesmo é cruzar o Mamanguá, mas a satisfação de sair de casa pedalando e chegar em casa pedalando, não pode ser descrita.
Chegando no mamanguá

Condomínio das Laranjeiras
Acordo cedo, o sol ainda não nasceu. Verifico a bicicleta. Confiro os equipamentos, kit de remendo, algumas ferramentas, capacete, água, isotônico, um lanche. Saio de casa animado. Em pouco tempo estou no ponto de encontro, na BR-101. Não espero muito e o Alison chega. Trocamos algumas palavras e, às 06h começamos a pedalar de forma lenta, sentido Ubatuba. Nosso primeiro destino: Condomínio das Laranjeiras, todo em asfalto. Nosso trajeto segue a BR até a entrada de Trindade. Em Trindade, subimos a serra e chegamos na rotatória, onde à esquerda vamos para o condomínio das Laranjeiras e à direita para Trindade. Esta serra não é fácil, tem um bom desnível em uma curta distância, e serve para aquecer e dar uma queimada nas pernas. Seguimos à esquerda, sentido condomínio das Laranjeiras. O caminho é agradável, e segue em uma grande descida até a portaria do condomínio.
Ponta da Foice
Em frente a portaria, seguimos à esquerda, e já saímos do asfalto. Entramos na trilha, que segue bem tranquila, sem muito desnível, em um single track fácil, com pouco mato atrapalhando. Rapidamente chegamos perto da vila oratório, e pegamos uma outra saída à esquerda. É uma estrada larga, de terra, que segue até o fundo do saco do mamanguá, seguindo a estrada passamos por uma porteira do que já foi uma fazenda, em algum momento no tempo, mas que está abandonada há bastante tempo, o mato já faz parte da estrutura. É cedo, mas o sol e a temperatura já mostram que o dia vai ser quente.


A estrada termina em um descampado. É um mangue, mas a estrada está seca e podemos pedalar por ela, sem problema. À direita já é possível avistar o pão de açúcar, que fica no meio do mamanguá, na margem direita. A trilha entra em uma mata novamente e sem muita demora, começamos a ter uma visão do mangue, no fundo do saco do mamanguá. Continuamos pedalando até a ponta da foice. Lá paramos e comemos alguma coisa. Conversamos um pouco sobre o trajeto que ainda temos pela frente e contemplamos a beleza do local. A ponta da foice é um local de onde temos uma boa vista do mangue. Dividimos uma fruta e algumas castanhas, descansamos um pouco e continuamos para alcançar o Currupira, primeira comunidade que passaremos.
Currupira
Voltamos pela mesma trilha, pois o caminho para o Currupira sai deste mesmo caminho, mas um pouco antes de chegar à ponta da foice. Pedalamos atentamente para identificar a saída que nos levará a trilha. Voltamos alguns quilômetros e encontramos a saída que desejamos. O início desta trilha é uma forte subida com muito mato e algumas raízes, dificultando a progressão. Começamos a empurrar a bike ladeira acima. A subida alivia e vira um single track, onde seguimos pedalando. Cruzamos uma pequena floresta e começamos a descer do outro lado da colina. A descida é íngreme e em alguns momentos empurramos a bike. Seguimos por esta trilha, que vai por entre as árvores e começamos a beirar um rio à nossa esquerda.
Chegamos em uma comunidade, com algumas poucas casas e precisamos atravessar para o outro lado do rio, após algumas explorações achamos o melhor lugar para cruzar. Chegamos do outro lado e eu pergunto a algumas crianças, que estão jogando bola, por onde segue a trilha para o Currupira. Eles nos indicam e nós continuamos a trilha. O calor continua aumentando, e começa a incomodar, paramos em cada curso de água doce que passamos para nos refrescar e apreciar a densidade e a beleza da mata. O caminho nos leva até a margem esquerda do mamanguá. Mais alguns minutos e entramos no Currupira. Seguimos a trilha até a beira do mar e paramos para um lanche e mais hidratação.
Atravessando o Mamanguá
Conversamos um pouco sobre o desafio de chegar até aqui e o que ainda falta para terminarmos a aventura, enquanto comemos nosso lanche. Depois de mais alguns momentos sentindo o lugar, subimos na bicicleta e seguimos nosso caminho. No fim da vila, paramos na escola para encher nossas águas e molharmos a cabeça com água doce em uma bica. Voltamos para a trilha, sempre com o mar à nossa direita e muito próximo. A trilha segue subindo e descendo, com muitas pedras e raízes pelo caminho, empurramos a bicicleta em diversos momentos.
São 11h da manhã e o sol está à pino. O calor não era apenas uma temperatura, era uma presença física. A umidade gruda na pele como um segundo casaco. Conseguimos sentir as partículas quentes de umidade em nossa pele. Seguimos subindo e descendo, e cada pedalada ou empurrada era um diálogo com a Natureza e com nós mesmos. Encontramos uma água doce e paramos para encher as garrafas novamente e molhar o corpo.


Seguimos a trilha, pedalando quando possível. Começamos a avistar o pão de açúcar. Reparo que não costumo avistá-lo por este ângulo e comento com o Alison, o quanto ele é diferente, olhando daqui.
Chegamos em um ponto onde um grande restaurante com pousada ocupou a praia, e para que as pessoas não passem por suas areias, ele construiu uma passagem por trás, toda em escada, que impossibilita pedalar e torna necessário empurrar e carregar a bicicleta. Seguimos por uma subida íngreme com muitos degraus, sempre empurrando a bicicleta. Após a subida, uma descida. Neste ponto a perna já está queimando do esforço e de segurar a bicicleta nestas escadas. Termina a descida, uma ponte.
Cruzamos a ponte e mais uma subida íngreme com degraus. Avistamos mais um pequeno córrego, paramos e molhamos o corpo. São 12:30h e a temperatura é muito alta. Progredimos mais devagar. Seguimos pedalando, empurrando, subindo e descendo, e alguns quilômetros à frente passamos pela pousada mamanguá. Paramos em uma casa de barcos no final da praia onde fica a pousada, sentamos de frente para o mar. Do outro lado da margem está a praia do cruzeiro e o pico do pão de açúcar.
O cansaço some frente a beleza do que contemplamos sentados nos pedaços de madeira em que estamos. Fazemos mais um lanche, descansamos um pouco, contemplamos e seguimos.
Estamos bem cansados por causa do esforço misturado com o calor, o corpo começa a questionar as decisões que a mente tomou. Porém, seguimos animados, pois estamos em um lugar paradisíaco. E, claro, porque estamos próximos à trilha que leva à Paraty Mirim.
Paraty Mirim
Por volta de 13h, paramos de empurrar e conseguimos subimos na bicicleta e continuamos os últimos quilômetros antes de começar a travessia para Paraty Mirim. Seguimos por uma trilha, que em pouco tempo vira uma espécie de estrada, bem larga, e pedalamos tranquilamente. Após alguns minutos a estrada começa a estreitar e vira novamente uma trilha. A inclinação começa a ficar mais forte e pedalar não é mais possível, pelo menos para nós.

Começamos a empurrar a bicicleta, subindo de forma muita lenta. A impressão é que estamos em direção ao topo do Everest, dado o calor e o cansaço. Muitas raízes e troncos caídos na trilha fazem com que nos esforcemos mais ainda, levantando a bicicleta para transpor os bloqueios. Paramos frequentemente para descansar e hidratar. As pernas queimam, o suor escorre por todos os poros e a subida não acaba.
Pensamentos intrusivos me fazem questionar o motivo de ter escolhido essa atividade para passar um dia do meu final de semana, que seria de descanso. Comento com o Alison e ele me responde que se lembrou do motivo de não fazer esta trilha com frequência. Conversamos um pouco sobre como gostamos de sofrer. Como gostamos de passar por essas situações, e não encontramos uma explicação, só chegamos a conclusão que gostamos de explorar, de estar no mundo, e mesmo com todo o cansaço, vale a pena. Em algumas semanas desaparece a sensação de esforço e ficam somente as coisas boas.

Depois de vários minutos sofrendo com a subida, percebemos que vamos começar a descer. Entramos na descida e ela é mais íngreme do que a subida, tornando impossível, para nós pelo menos, descer em cima da bicicleta. Vamos avançando com muito custo, segurando a bicicleta como podemos. Os dedos do pé batendo na frente do tênis, que está fazendo esforço para segurar o corpo e não deixar ele escorregar. Um escorregão e vamos chegar bem rápido em Paraty Mirim. Provavelmente não vamos conseguir voltar para Paraty, mas desceremos bem rápido. O corpo, que já sente o peso da aventura, tenta dizer para pararmos um pouco, mas seguimos. Começamos a avistar a praia de Paraty Mirim ao fundo, bem distante. Precisamos descer 200m de desnível. Após 30 minutos, aproximadamente, de esforço segurando a bicicleta e travando as escorregadas com a sola do tênis, chegamos a Paraty Mirim.
Comemoramos. São 14:30h e seguimos para comer um super pastel. Sentamos no quiosque, tiramos os tênis, as meias e relaxamos. Ainda faltam 20 km para chegar em casa, mas já terminamos a parte mais difícil. Um pastel e 2 cervejas comemorativas depois, subimos na bike para voltar.
A Volta
Seguimos por uma estrada de terra batida, com muitos carros saindo da praia e voltando para Paraty. A poeira incomoda um pouco. Paramos em uma vendinha para comprar a última água. A estrada de terra acaba e começa o asfalto, com ele vem uma grande subida. Como é asfalto, o progresso é bom e rapidamente vencemos a serra e chegamos na BR-101 novamente. Seguimos pela BR, um caminho que fazemos com muita frequência e não há nenhum mistério. Sem muita demora, estamos cruzando a cidade de Paraty, na saída do cassununga me despeço do Alison, pois é por onde ele segue e eu sigo um pouco mais à frente, até a minha casa.
Chego em casa. São 17:30h, o corpo está cansado, suado, doído. Mas a mente está tranquila, calma e serena. Ela está feliz por ter passado mais um dia aproveitando o lado de fora. E está feliz por ter cruzado todo o saco do mamanguá de bicicleta.
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Eu amo este tipo de atividade. Pode parecer masoquismo para muitas pessoas. Não é só uma volta de bicicleta, é uma jornada de autoconhecimento. Cada pedra, cada raíz, cada subida íngreme, um teste de resiliência. Essa resiliência se incorpora em quem sou e melhora a forma como lido com as adversidades, no trabalho, na família, na vida. Esse é um dos motivos que me faz viver do lado de fora.