Quando voltei do Atacama de moto eu tinha certeza que uma moto 250cc não era feita para grandes viagens. E o meu pensamento era de que, para fazer algo desse tipo de novo, precisaria trocar de moto. Mas o tempo passou e o desejo de explorar novos lugares voltou. Essa é a moto que eu tenho, trocar não é uma opção. Ou vou com ela, ou não vou conhecer outros lugares.Quando voltei da estrada real de bicicleta pensei a mesma coisa. Voltei achando que sair de bicicleta por aí era demais. Mas o tempo passou, e o desejo de explorar novos caminhos voltou e já estou pensando o que posso fazer a seguir, de bicicleta.


Isso acontece sempre que participo de alguma travessia ou expedição. O cansaço e algumas dificuldades, muitas vezes, me fazem questionar o motivo de estar fazendo aquela viagem. Mas alguns dias depois de terminar, eu esqueço tudo e o desejo de ver o desconhecido de perto volta, mesmo em viagens em que sei que vou ficar cansado, sei que não vou ter conforto e sei que diversos problemas podem (e vão) acontecer. Mas o ímpeto de ir e ver é mais forte.
Shackleton, Maurice Herzog, Hillary e Tenzing Norgay, Reinhold Messner, Amundsen, Thor Heyerdahl, Lionel Terray, Heinrich Harrer, George Mallory. Todos esses e muitos outros povoaram minha mente com suas aventuras. Sempre devorei livros sobre essas aventuras. Sair em direção a um lugar desconhecido, inóspito e belo é algo indescritível. Por este motivo a história destas pessoas me cativa tanto. Hoje as aventuras são um pouco diferentes, mas ainda são aventuras e temos muita coisa para explorar por aí. Não estamos mais em uma batalha para ser o primeiro a chegar no polo norte ou para ser o primeiro a escalar uma montanha, ainda que tenhamos muitas rotas em montanhas para serem conquistadas. Mas o que importa é o que um lugar significa para nós.
A verdade é que desde sempre o ser humano foi atraído por desafios deste tipo, por qualquer motivo que fosse. Ego, Fama, não importa. Sempre fomos exploradores. É algo que vem de dentro. Uma vez o montanhista George Mallory, quando perguntaram a ele sobre o motivo dele escalar o Everest, ele respondeu: “Porque ele está lá”. Ele não está errado, na minha opinião.
Há alguns anos atrás eu fiquei sabendo da existência de um parque nacional no norte de Minas Gerais. O Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. Quando eu vi as fotos do lugar eu senti que eu precisava ir até lá. Precisava ver aquelas cavernas com mais de 100 metros de altura. Os anos foram passando e em 2022 eu tive a oportunidade de conhecer a gruta mais famosa do parque, a gruta do janelão. É difícil colocar em palavras o sentimento de caminhar por dentro daquela gruta. É como voltar à pré-história, caminhar por uma caverna enorme, com diversas claraboias que deixam o sol entrar, formando um ecossistema intocado e diferente. A todo momento parece que um Velociraptor vai sair de trás de alguma pedra. Eu me arrepio só de lembrar. Todo o parque é um grande sítio arqueológico, com pinturas rupestres de diferentes períodos e muitas cavernas. A sensação de chegar lá e ver aquilo de perto foi transformadora e é por isso que sempre volto a estar nestes lugares, eles me deixam diferentes. Não tenho como explicar esse sentimento, é preciso ir e vivenciar.




Este é um dos muitos casos em que essa força, somente olhando uma foto, me fez querer estar presente e sentir um lugar. Essas experiências só melhoram nosso conhecimento sobre a vida em geral. Além de ver de perto coisas que a natureza criou durante milhares de anos, ir a estes lugares te põe em contato com pessoas extraordinárias, com vidas e histórias bem diferentes da nossa e que transformam a gente. A energia é diferente, e a gente sente. Seja olhando uma paisagem, seja andando por uma trilha em um lugar que provavelmente já foi um rio.
Assistir ao nascer ou ao pôr do sol, perceber a mudança de maré em uma praia, sentir a força da água em uma cachoeira, são atividades que colocam a gente em contato com uma força que não é desconhecida e você pode chamar como quiser. Mas entrar em contato com os ciclos naturais da terra fazem a diferença em nossa vida. Existiu uma época em que os nossos ciclos eram regidos pela força da natureza, com o ciclo circadiano. Precisamos resgatar esse contato.
Não é preciso ir longe, para a Antártica ou para a Europa, para ter uma experiência incrível. O Brasil é muito diverso e temos – quase – tudo por aqui. É só olhar em volta que você vai perceber. E o que falta, é fácil de encontrar nos nossos amigos vizinhos Uruguai, Chile ou Argentina.
Minha lista de lugares para conhecer pela América do Sul ainda é extensa e enquanto eu conseguir me sustentar nas pernas, eu vou continuar explorando e conhecendo as maravilhas que a Terra tem. E eu acho que você deveria fazer o mesmo. Faça a sua lista, vá a esses lugares. Quando você compra um carro ou um telefone, passa um tempo e você já nem liga mais para ele. Mas quando você viaja, explora e vivencia um lugar incrível, a sua vida muda e você lembra disso para sempre e isso te torna mais feliz. Nunca pare de explorar.