Coloco a última bagagem na moto, confiro se está tudo preso direitinho, coloco todas as minhas roupas de frio. Subo na moto, são 9h da manhã e sigo em direção a cordilheira. Não saí mais cedo para evitar o frio da manhã, que castiga, quando estamos na moto. Sigo para a ruta 7, deixando Mendoza para trás. A cabeça fervilha com a possibilidade de não conseguir cruzar para o Chile, mas também estou animado de, finalmente, cruzar a cordilheira dos Andes de moto.
O inverno chegou tarde este ano 2023 e está demorando para ir embora, não deveria mais ter gelo em Outubro. Só que ainda tem. No dia anterior andei por Mendoza tentando comprar uma luva mais potente, mas sem sucesso. Também perguntei sobre a travessia, e a resposta foi sempre a mesma. Ainda tem nevado, pode ser que esteja fechada a travessia. O Paso de los Libres, no twitter, informa que a temperatura lá no alto está -9ºC e tem chance de nevar. Pode ser necessário utilizar correntes nos pneus. De moto não tem como. Ou está aberto ou tenho que voltar.
Rapidamente começo a ver a cordilheira ao fundo, desde a planície em que estou. Fico vendo seus picos nevados e a minha dúvida aumenta. A família está chegando hoje em Santiago para me encontrar e passarmos alguns dias juntos. Isto me dá ânimo e sigo em frente. A cordilheira vai ficando cada vez mais perto e seus ventos gelados começam a chegar. A minha luva está segurando o frio e me sinto confiante. A estrada segue em direção a um vale onde as pontas das montanhas não são brancas e eu fico animado. A estrada fica sinuosa e começo, finalmente, a subir.

Este é um dos pontos altos da minha viagem, sempre tive vontade de cruzar a cordilheira de moto. Começo a pensar nos caminhos que me trouxeram até aqui. Os 5 dias rodando 3.100km, desde Paraty, até chegar neste momento mágico. Aprecio cada detalhe. Me deslumbro com o visual, após cada curva. Diversos túneis cavados nas pedras, aparecem depois de curvas. Os lagos, o deserto, as montanhas com 5.000m ao fundo, o céu azul, o sol brilhante. Tudo isso pinta imagens na minha retina e a marcam para sempre.
Pouco mais de 100km depois de deixar Mendoza, chego em Uspallata. Cidade onde vou decidir se vou seguir ou voltar. Na entrada da cidade tem uma espécie de blitz, não sou parado, mas pergunto se a travessia para o Chile está aberta e tenho uma confirmação positiva. Metade da ansiedade se vai, pelo menos ao destino eu chego. Mas ainda tem o frio, a altitude, a moto nestas condições.
O frio está aumentando, mas as roupas que tenho estão segurando, sem problemas. Chego a um posto YPF e decido parar um pouco para descansar. O posto está cheio, acho que todo mundo que faz essa travessia para por aqui. Descubro que é o último posto, depois só no Chile. Apesar do tanque estar cheio, decido abastecer, por desencargo de consciência. Entro na fila de carros e espero minha vez. Abasteço, como algumas medialunas e sigo em direção às montanhas.
A paisagem começa a mudar e o frio começa a chegar com um pouco mais de intensidade. As roupas ainda estão segurando. A ponta dos dedos está gelada, mas no geral o frio está controlado. O ambiente e o clima vão ficando mais inóspitos à medida que a altitude vai aumentando. E o gelo vai ficando cada vez mais perto. Passo por uma Gendarmeria, que deve fazer parte da aduana da Argentina. E começa uma fila de carros. Um engarrafamento que segue por uns 2km, de pessoas entrando na Argentina. Em direção ao Chile está tudo tranquilo.
O vento começa a atrapalhar um pouco o progresso. Os 21cv da Teneré 250 começam a sentir o peso da aventura. Percebo que estou devagar – por volta de 70km/h – e o acelerador não faz muito efeito. Posso enrolar o cabo e nada. O caminho é maravilhoso, mas fico dividido entre apreciar e curtir, e prestar atenção à moto, para ver se vai acontecer algum problema. O gelo já está no acostamento da pista e o frio aumenta a cada momento. A mão começa a sentir a alta exposição, nada que incomode ao ponto de parar, mas já sinto o frio, de verdade. Passo pela entrada do parque do Aconcágua e o vejo lá no fundo. Dou uma parada, aprecio, descanso e tiro umas fotos.
Me arrependo de não ter saído mais cedo para apreciar e parar mais para curtir o caminho. Infelizmente eu não tinha como saber como estaria o clima e o tempo. Estou a 3.000m de altitude e a moto não sente, sente só o vento. Quando menos espero estou chegando ao Paso Internacional Los Libertadores. Agora é só entrar no Chile, descer Los Caracoles e logo estarei em Santiago em algum lugar quente.


Entro na aduana e não está muito cheia, o lugar é coberto e abrigado do vento. Um dos operadores me manda para uma fila onde tem algumas motos paradas. Chego com a minha Teneré 250 e me junto às BMW 1100. Todos brasileiros. Conversamos sobre caminhos. De onde estamos vindo, para onde estamos indo. E esperamos. Ficamos parados e nada. As filas dos guichês vão aumentando, a fila de moto – com outros brasileiros – vai aumentando. Nada das motos andarem. Os carros andam pouco. E o tempo vai passando. Atrás de mim está um Argentino, que tem amigos em Santiago e está indo visitá-los, conversamos bastante nada da fila andar. Procuro o Agente que nos mandou para essa fila e não o acho. Descubro que não estamos em uma fila, mas sim no vão entre 2 guichês. Todas as motos estão fora da fila dos guichês.
Começo minha saga de cruzar para o Chile. Procuro um agente, explico o problema e ele nos direciona para a frente de algum carro que já está na fila. Os motoristas dos carros ficam nervosos e reclamam bastante conosco. O agente faz isso e se manda. Ficamos ali, com os motoristas reclamando e não dando espaço para entrarmos com as motos na fila, atrás dos respectivos carros indicados. Finalmente encontro o agente que direcionou as motos para fora da fila. Ele me informa que nós deveríamos ter marcado qual carro era o último da fila no momento em que chegamos e que esse era o nosso lugar. Explico a ele que ele não tinha dito isso e que ninguém tinha marcado. Ele lamentou e se foi, como se estivesse atrasado para algum compromisso.
O tempo foi passando, os carros reclamando e nós esperando. Conversei com meu amigo argentino e expliquei a situação e perguntei se ele não poderia dar um “jeitinho argentino” na situação, já que ele fala espanhol e se expressa melhor. Ele concorda e sai com a missão de resolver o problema. Ele volta alguns minutos depois com diversas informações. Os motociclistas brasileiros não entendiam muito o espanhol dele, e eu me sirvo de intérprete. Algum agente viu que eram só motos e seria rápido já fazer trâmite de todos, só tínhamos que seguir uma sequência de guichês com nossos documentos, e no fim, levar a moto para fazer a vistoria.
Meu novo melhor amigo me leva a tiracolo e vai fazendo o todo o trâmite comigo, cortando muito tempo de comunicação em portunhol. Os outros brasileiros estão meio perdidos e me pedem informação de tempos em tempos. Documento carimbado, levo minha moto para a vistoria. Duas horas e meia depois estou trocando meus pesos argentinos por chilenos para, finalmente entrar no Chile e descer o, tão sonhado, Los Caracoles.
São 16h, no momento que saio de dentro da aduana, e vejo novamente o céu, com o sol bem mais baixo do que quando entrei. Tenho ainda 150 km para percorrer. Meu amigo argentino me explica que Santiago à noite não é uma cidade muito segura para andar de moto e isso me deixa um pouco preocupado e querendo correr, dado o horário avançado que deixei a aduana. Nos despedimos e ele sai em velocidade em direção aos Caracoles. Eu tento seguir com calma para apreciar a paisagem, não é todo dia que vejo este bioma e estas montanhas.
Sigo a estrada, e passo na entrada do centro de Esqui de Portillo, ainda com bastante neve. Vou seguindo apreciando a paisagem. Logo começo a descer as curvas, incrivelmente, fechadas de Los Caracoles. Diversos caminhões descendo e subindo, com muito cuidado. Não mais do que 20 curvas depois, estou embaixo da grande encosta. Paro um pouco, olho em volta e fico admirado com a beleza da cordilheira. Começo a descer, por um vale incrível até Los Andes. Saio de 3.000m e chego a 800m em Los Andes, em poucos quilômetros.
Passo pelos arredores de Los Andes e sigo por uma auto estrada, duplicada, até Santiago. O caminho é lindo, passo com o sol bem baixo, deixando tudo mais colorido. Paro somente para abastecer e entro na cidade de Santiago. O frio extremo já se foi e começo a sentir a tranquilidade de estar chegando ao meu destino. Após algumas entradas erradas, a cidade é muito grande, chego ao local onde vou me hospedar com a família. Estaciono a moto, tiro toda a indumentária, subo e tomo um banho bem quente. Paro para descansar um pouco deitado no sofá e a campainha toca. São meus filhos e minha esposa.
Após alguns momentos abraçados, contamos nossas aventuras até chegar ali. As crianças me contam sobre como foi incrível sobrevoar os Andes e eu explico como foi incrível cruzar ele de moto.
***
Na aduana me informaram que a temperatura, no dia que fiz a travessia foi de -6ºC. Eu estava com uma blusa segunda pele, um casaco de fleece e minha parka da asw com forro. Não senti nenhum frio no meu peito. Estava com uma calça segunda pele, uma calça de fleece e uma calça de moto com forro e não senti frio nas pernas também. Somente as luvas que eu deveria ter levado uma segunda pele para botar por baixo. Não foi algo insuportável, mas daria mais conforto se tivesse um pouco mais de quentura nas mãos.
O vento realmente atrapalhou a travessia, a moto sentiu bastante. A altitude eu não considerei muito, pois alguns dias depois eu cruzei da San Pedro do Atacama para a Argentina, chegando a 4.100m de altitude e a moto se comportou muito bem. Neste dia não ventava.
Meu amigo Argentino se equivocou em relação à segurança de Santiago. Depois de ter passado alguns dias rodando pela manhã e pela noite, achei tranquilo. Não me senti ameaçado ou qualquer outra coisa. Todo cuidado é pouco, obviamente. E minha experiência crescendo no Rio de Janeiro deve ter ajudado um pouco.