Lembro de quando eu era criança, que eu folheava revistas de surf e pensava que um dia ia surfar igual aquelas pessoas que estavam nas fotos. Quando eu ia para a praia eu não pegava onda igual a elas, e percebi cedo que seria difícil surfar com elas, mas isso nunca me parou. Sempre me deu ânimo de praticar mais e tentar. E era algo que simplesmente me dava prazer, sempre me senti bem sendo empurrado por uma onda. Eu ia a praia e pegava onda, mesmo que não tivesse ninguém olhando. Eu só tinha vontade de fazer, eu tinha uma boa sensação e queria repetir. E eu tentava e tentava, sem medo de falhar. Sempre tentando melhorar. E era só isso. Algo que eu tinha paixão por fazer, sem esperar nenhum retorno, que não fosse a satisfação de descer uma onda.
Como adulto, tenho menos tempo disponível, tenho mais responsabilidades e o já conhecido problema com as telas. Mas não é só isso, sinto que perdi alguma coisa no ato de amadurecer. O caminho para a responsabilidade tira algo da gente.
A vida adulta cobra demais. E não sobra tempo para o que gostaríamos de fazer de verdade. As cobranças na profissão que escolhemos, e que podemos amar, se tornam maçantes pelo objetivo de performance e sucesso. Se dedicar a pintar, escrever, tocar um instrumento, tirar fotos, surfar – ou seja lá o que dá vontade de você fazer – se torna uma coisa infantil e distantes. E os problemas começam na infância.
Quando crianças somos até incentivados a explorar e tentar, mas só até certo ponto. Se for muito perigoso é melhor não fazer, se os primeiros desenhos não são bons é melhor tentar outra coisa, e por aí vai. Já direcionamos as atividades em que a criança seja boa e que pode render um bom salário no futuro. A brincadeira acaba e já começa a performance. Mas ainda sim, temos um pouco de liberdade de entender e nos entreter com as atividades que gostamos.
Nascemos com uma curiosidade, uma coragem, que nos faz tentar qualquer coisa. Não pensamos se cantamos bem, somente cantamos. Não pensamos se desenhamos bem, somente desenhamos. Não temos medo de explorar, aprender, ser ruim e tentar novamente. É um ciclo, e para ficar bom precisamos repetir muitas e muitas vezes.
Descobrimos bem cedo que existe ser bom e ser ruim, e que tudo tem consequências. Aprendemos rapidamente que precisamos agradar e ser bons, dessa forma fazemos o necessário para que as coisas aconteçam como esperam. Crescemos e no trabalho a pressão por performance aumenta.
Como fomos ensinados, rapidamente “entendemos” que o problema somos nós. Que não temos aptidão, que não somos bons o suficiente, que não levamos jeito. Nesse momento perdemos a coragem de aprender. E focamos no que é garantido. A paixão por aprender e tentar se vai e dá lugar ao medo. Nas redes sociais vemos uma boa quantidade de pessoas ótimas naquilo que gostaríamos de fazer e nos sentimos mais acuados em aprender. Só não vemos o processo de aprendizagem dessas pessoas, vemos somente o resultado. Não vemos as horas, os anos, e o que essas pessoas abriram mão e colocaram de esforço para serem boas em determinada coisa. Mas não pensamos nisso, olhamos e nos sentimos piores.
Existe um estudo da psicóloga Carol Dweck, da Universidade de Stanford, sobre o que ela chama de “mentalidade fixa” versus “mentalidade de crescimento”. Pessoas com mentalidade fixa acreditam que suas habilidades são inatas e imutáveis. Ou você nasce bom em algo, ou não adianta tentar. Já aquelas com mentalidade de crescimento entendem que habilidades podem ser desenvolvidas através de esforço e prática.
O problema é que passamos décadas sendo empurrados em direção à mentalidade fixa. “Você não leva jeito pra isso.” “Não é sua praia.” “Foca no que você é bom.” Frases aparentemente inofensivas que vão construindo muros ao redor das nossas possibilidades.
E assim vamos estreitando o próprio mundo. Diminuindo nosso horizonte. E entendendo que fomos criados para uma coisa: ser bons em nosso trabalho. É ali que devemos deixar o nosso suor e nosso sangue, não em aprender coisas que não vão ser utilizadas profissionalmente.
O neurocientista Andrew Huberman fala muito sobre neuroplasticidade – a capacidade do cérebro de criar novas conexões e aprender coisas novas durante toda a vida. Ele explica que nosso cérebro continua sendo capaz de mudanças significativas mesmo na idade adulta, mas que precisamos nos colocar intencionalmente em situações de desconforto e novidade para ativar esses mecanismos. O problema é justamente esse: o desconforto. Nossa sociedade não valoriza o desconforto, e somos ensinados a chegar a nossa zona de conforto e ficar por lá.
Ser ruim em algo mexe com emoções que aprendemos (desde cedo) a evitar a todo custo. Frustração. Constrangimento. A sensação de inadequação. São sentimentos ruins, e desenvolvemos uma vida inteira de estratégias para não senti-los. A mais eficaz delas? Simplesmente não tentar coisas novas.
Mas isso tem um custo.
Pesquisadores como Mihaly Csikszentmihalyi, que estudou o conceito de “flow” – aquele estado de absorção total em uma atividade –, descobriram que a felicidade autêntica está intimamente ligada ao engajamento com desafios que expandem nossas capacidades. Não é sobre ser bom. É sobre estar envolvido, curioso, aprendendo. É sobre ter algo que te faz perder a noção do tempo porque está genuinamente interessado.
Repetir as mesmas coisas até aposentarmos e, nesse momento, começarmos a viver, parece bom e garantido. Mas muita gente chega nesse ponto da vida e não sabe o que fazer depois, não sabe como seguir com a vida sem praticar o seu “ofício”. Pessoas que foram ensinadas a vida toda que o seu “trabalho” é a coisa mais importante a ser feita. O problema é que, muitas dessas pessoas, acabam morrendo quando se aposentam, porque não sabem o que fazer. Nunca pensaram no que gostam, nunca olharam para dentro de si. Fizeram do trabalho sua vida, e quando ele acaba, a vida também acaba.
Eu tenho dificuldade de pensar em uma vida assim. Uma vida de repetição, ano após ano, somente fazendo o que já sabemos fazer. Onde nosso perfil na rede social deve refletir o que vivemos no nosso trabalho. Não soa como “estar vivendo” para mim, soa mais como “estar sobrevivendo”.
Acredito – de verdade – que precisamos de paixão. Não em fazer coisas que gerem crescimento profissional e performance, mas a paixão que se transforma em curiosidade. Curiosidade genuína. Aquela vontade que nos faz querer tentar e aprender mesmo sabendo que vamos ser péssimos no começo. Ou que podemos nunca ser perfeitos. E, no fim das contas, não precisamos ser os melhores. Ser bom o suficiente para que você tenha prazer em fazer aquela atividade já é o suficiente. Não precisamos ser os melhores, mais rápidos, mais destemidos, mais fortes. Só precisamos ter coragem de fazer as coisas que gostamos, sem se preocupar com nada além do prazer de praticar.
De uns anos para cá venho me dedicando a aprender diversas coisas que sempre tive vontade, mas tive medo ou, aquela voz interior, tentou me dizer que eu não seria bom. Me sinto, de certa forma, mais vivo quando estou nesse estado, tentando, falhando e tentando de novo.
Li em algum lugar que a diferença entre adultos felizes e infelizes não está nas conquistas, mas na disposição de continuar aprendendo. De aceitar que, na maioria das vezes, não vamos saber. De trocar a ilusão de competência pela realidade do crescimento.
E precisamos aceitar que podemos nos dedicar a algo que não vai virar um trabalho. E é até bom que não vire. Treinar e nos dedicar a algo simplesmente pelo fato de querermos aprender aquilo, sem pretensão nenhuma.
Não estamos mais em uma batalha para provar valor através de habilidades. Ou pelo menos não deveríamos estar. A vida vale mais do que isso. Vale pela capacidade de nos mantermos curiosos, apaixonados, dispostos a ser ruins em algo novo só pelo prazer de experimentar.
Talvez seja hora de a gente se perguntar: que coisa eu deixei de tentar porque alguém disse que eu não levava jeito? Que interesse genuíno foi abafado por medo de constrangimento? Que versão mais viva de mim mesmo está esperando do outro lado desse medo? O que eu quero aprender somente por querer, sem querer transformar em um trabalho?
Eu sigo buscando, tentando reaprender o que já sabia quando criança: que começar é mais importante do que ser bom. Que a paixão não precisa de justificativa. Que estar vivo de verdade exige coragem para ser iniciante, sempre, em alguma coisa. Que tentar e me sentir satisfeito comigo mesmo, é o que importa.









