Coloco a última roupa que tirei da mala ontem de volta na mala, fecho ela e olho em volta. Não estou no hotel mais interessante. As paredes tem bastante mofo, o banheiro é bem precário e a cama não é a mais confortável. Não dou muita atenção a esses pensamentos, é algo que acontece em viagens longas, nem sempre escolhemos os melhores lugares.
Lembro que ontem estava em Cafayate, em clima de montanha, em um lugar incrível. Agora é voltar para casa. Acelerar a moto e voltar para o Brasil.
Calço a bota, visto o casaco, pego a bolsa e o capacete e me dirijo para fora do quarto. Sigo por um corredor bem estreito, que o chão range a cada passo, é cedo e tento ser cuidadoso para não fazer muito barulho e acordar os outros hóspedes. Chego a uma escada igualmente estreita, em que os degraus são altos e ela desce de forma abrupta. Gasto um tempo para descer as escadas carregando tudo sem cair. Passo pela recepção e me despeço da recepcionista, que é diferente da pessoa que me entendeu ontem quando cheguei. O sol ainda está tímido e faz um pouco de frio.
Arrumo tudo na moto. Já estou craque e consigo arrumar tudo em poucos minutos. Mais dois dias e entro no Brasil. Estou em Pampa Del Infierno, uma cidade no chaco Argentino. Hoje termino o chaco, quem em sua maioria é uma grande reta. Sem muito atrativos e quente. Entrei nele ontem e saio hoje. Hoje sigo até Posadas, são 590 km de percurso aproximadamente. Coloco o celular no suporte que está no guidão e traço o percurso no GPS. Nem precisa, é só seguir a reta, mas eu gosto de ver as distâncias e às vezes procurar um posto de gasolina.
Calculo na cabeça que a minha primeira parada será em resistência, para abastecer e comer alguma coisa. No final do Chaco. Eu gosto de esticar mais no primeiro momento da manhã, depois começo a parar mais. Dou a partida na moto e sigo o caminho para a estrada.
A estrada está boa, o asfalto é bem liso e não tem buracos. Sigo a reta infinita passando por diversos vilarejos. Constato que por toda a Argentina e Chile os postos de gasolina estão sempre cheios. Em alguns lugares faz sentido, mas no geral sempre tem postos a boas distância um do outro, penso e sigo a estrada. Olho no horizonte e já consigo ver os prédios de Resistência à frente. Reparo no relógio e vejo que não levei tanto assim. Paro em um posto e Abasteço e como umas média lunas na conveniência do posto. As lojas de conveniência dos postos YPF são muito boas, em cidades grandes ou no meio do Atacama. Descanso um pouco e sigo viagem.
Sigo margeando a cidade, sem entrar nela. Rapidamente cruzo a ponte e estou em Corrientes. Parece Juazeiro e Petrolina no Brasil, duas cidades muito próximas separadas por um rio, penso e continuo pela estrada. Em Corrientes já passo por dentro da cidade e pego todo o seu fluxo de carros de um fim de manhã em horário comercial. Entro novamente na estrada e o fluxo de carros diminui e acelero a moto.
O dia vai passando e a estrada vai ficando monótona. Olho o relógio e já são 14h, resolvo parar em comedor para colocar mais uma comida para dentro. Paro em um lugar bem agradável à beira da estrada. Tem bastante árvores e paro em uma sombra. O local não tem muitas opções, acabo optando por um sanduíche de queijo. Volto para a moto e começo a comer, parado em uma mesa próxima a onde parei. Escuto um barulho e quando olho vêm vindo um grupo de motociclistas do Sul, eles param perto de mim e conversamos um pouco. Eles me falam que fizeram a ruta de los seis miles, ainda quero fazer essa rota e ficamos um tempo batendo papo.
Depois de mais alguns minutos me despeço e sigo minha viagem. Olho a quilometragem e já faltam pouco menos de 60 km para chegar. Me sinto animado, chegar cedo no local de pernoite é ótimo para descansar e conhecer um pouco a cidade. Vejo no GPS que do ponto em que estou até Posadas é praticamente mais uma reta. Acelero e vou seguindo.
Estou acelerando, curtindo e pensando no rango que farei quando parar para descansar. Eu não gosto de comer muito enquanto estou na estrada, prefiro comer lanches e no fim do dia comer algo substancial, pondero. De repente sinto a roda traseira meio bamba e encosto. O Pneu furou, pensei. Olhei o pneu e ele estava bem. Peguei minha bomba de pé e enchi mais um pouco, ele não estava vazio. Parei, olhei para os lados e resolvi seguir mais um pouco. O pneu ainda bambo. Paro novamente, desta vez inspeciono melhor o que pode ser o problema. Lembro que a Teneré 250 tem um problema crônico no rolamento do cubo traseiro, vou verificar e não deu outra. Um dos rolamentos estourou e a moto está com a roda, literalmente bamba. Eu consigo mexer ela para um lado e outro com a mão.
Sinto pânico por alguns momentos, olho para todos os lados e não vejo uma casa, nada. Olho no GPS e estou há 40 km de Posadas. Não passa um carro e estou sem sinal de Telefone. Sento um pouco e penso nas minhas opções. Não são muitas além de levar a moto a algum lugar que possa concertar ela.
Decido subir na moto, jogar todo o meu peso para cima do tanque e rodar bem devagar. Vou pelo acostamento, a 20 km/h. Não ouso passar disso. Estou suando, andando muito devagar, está úmido e quente. Sinto as gotas de suor escorrerem pelas costas. De repente os amigos que fiz no comedor lá atrás passam por mim, veem minha situação e param. Um deles é mecânico. Ando um pouco com a moto, com ele atrás olhando. Ele me diz que indo nessa velocidade eu conseguiria chegar à Posadas sem problema.
Nos despedimos, eles seguem seu caminho. Vou andando bem devagar. Olho no GPS e ele me diz que tem um posto policial mais à frente. Penso que chegando lá posso descansar e tentar arrumar um reboque, para não precisar passar aperto a noite nessa estrada que não tem nada. Ando pelo que parece algumas horas, olho no mapa e o posto policial ainda está bem à frente. Ando mais um pouco e ele parece que está ficando longe a cada momento que chego mais perto.
Com o dia já caindo eu chego onde seria o posto policial e não tem nada além de uma velha construção abandonada.Faltam 15 km ainda. Acompanho o sol se pôr mais rápido do que eu avanço na estrada. Chego próximo da cidade e volto a pegar sinal de internet. Coloco no mapa a oficina mais próxima que encontro. Já escurecendo chego à oficina e um rapaz de seus 17 anos vêm me atender. Ele olha a moto e me fala que não existem muitas Yamahas pela Argentina e essa moto, nem a Lander, são comercializadas por lá, mas que ele vai dar uma olhada.


Concordo e ficamos por ali desmontando a moto. Eu vou dando algumas dicas, pois já passei por esse problema,e juntos vamos tentando resolver. Desmontamos a roda e vemos qual o rolamento que está com problema. O Cubo está danificado, mas eles não tem essa peça e não posso ficar mais dias aqui. Pergunto se ele consegue um rolamento igual, para trocá-lo e no dia seguinte eu já chego em Foz e lá consigo trocar. Ele não tem o rolamento na loja, mas um amigo pega uma moto e vai em busca do rolamento. Após alguns minutos ele volta, colocamos o rolamento e montamos a roda. Vejo que estou sem dinheiro para pagar ele e vou até o posto mais próximo para sacar, essa não é a melhor opção, mas é o melhor para o momento. Vou ao posto, saco e volto. Pago, agradeço e vou para o centro da cidade buscar um hotel. Já é tarde, estou cansado e sem paciência, pego o primeiro que vejo. Faço o trâmite de todo os dias, desmonto a bagagem, subo para o quarto. Tomo um bom banho, vou ao primeiro restaurante próximo ao hotel, como o primeiro prato do menu e volto ao hotel para descansar. Durmo feito uma pedra. Mas relaxado.
***
No dia seguinte, um sábado, fui para Foz do Iguaçu. O cubo segurou a onda. Mas cheguei e as lojas já estavam fechadas. E eu teria que ficar lá domingo e segunda para trocar a roda. Resolvi sair de Foz no domingo e seguir para Londrina, no Paraná. E acordar segunda de manhã em Londrina e resolver o problema. Acordei e fui a uma oficina, troquei o óleo e dei uma revisada no cubo, o mecânico olhou e disse que segurava fácil a chegada em Paraty. Me senti seguro e achei até bom trocar só depois de chegar em casa. Quando saí de Londrina, não tinha andado 20 km e o rolamento estourou novamente. Entrei em Ibiporã, ainda em Londrina, e achei uma oficina. O rapaz não tinha o cubo lá, mas eu consegui convencê-lo a me ajudar e ele pediu um de Londrina, paralelo, na Yamaha eles não tinham. Passei quase o dia inteiro por lá, e um motoboy chegou com o cubo, o mecânico trocou, fez a raiação e eu ainda consegui seguir até Ourinhos em SP no mesmo dia.

Esse mecânico foi um desses encontros em que a gente se orgulha das pessoas e percebe que o mundo não está perdido. Cheguei em Paraty sem mais nenhum percalço.






