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Dedo de deus no Raso da Catarina
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De moto no Raso da Catarina

  • Leonardo
  • 19 de novembro de 2025
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Estou acelerando pela areia e sentindo o vento, já voltando para a pousada. A temperatura está alta, o sol já está alto. Sinto o guidão da moto tremer e caio para a direita. Sinto a pedaleira da moto prensando a bota, que está debaixo dela. Tento puxar a perna e não consigo, a pedaleira está travando a bota. Faço esforço para tentar levantar a moto e a posição que estou não permite. Fico alguns minutos caído, parado, pensando. Começo a sentir uma pontada de desespero. Me pergunto o que estou fazendo aqui. E me lembro do motivo. Mas vou começar do começo.

O despertador toca e já levanto. Olho pela janela e o sol ainda não nasceu. As roupas da moto já estão separadas. Saio do quarto e vou até o refeitório da pousada para pegar meu café da manhã, que no dia anterior  combinei de tomar mais cedo para poder enfrentar o raso bem cedinho. Chego no refeitório e tem alguns sanduíches, tapiocas, suco, café e bolo separados. A pousada está vazia ainda, mas o meu café está preparado e embalado. Como um sanduíche e um pedaço de bolo. Penso em tudo que vou enfrentar na sequência e fico apreensivo. Serão 76 km de areia para chegar até a baixa do chico e voltar.

Começo a pensar em como descobri aquele lugar, lembro do rally dos sertões e depois da série sobre Maria Bonita que assiti recentemente. A série foi o que deu o clique para eu estar aqui hoje. Olho pela janela do refeitório e o sol está nascendo. Volto para o quarto, coloco a roupa da moto e me preparo para sair. Ainda muito apreensivo. No dia anterior o Abdiel da pousada me deixou mais confiante, ele conhece tudo da região e disse que com a minha moto seria tranquilo percorrer os 38 km até a baixa do chico. Pego uma água e os sanduíches e tapiocas que foram preparados e jogo na mochila. Prendo a mochila na moto, coloco o capacete e ligo a moto.

Sol nascendo no raso da catarina
Sol Nascendo
Areia que não acaba mais
Areia que não acaba mais
Mais areia
Mais areia

Na pousada os caminhos já são de areia e a moto já escorrega para sair e a ansiedade e apreensão aumentam. Enquanto manobro a moto empurrando com força para frente e para trás, os cachorros da pousada vêm latir. Diminuo a calibragem dos pneus, me sinto um piloto de rally.  Deixo a moto de frente para o portão, acelero e saio.

Meu caminho segue contornando o muro da pousada, que fica à minha esquerda. O trajeto é simples, não têm muitas curvas pelo raso da Catarina. Eu só preciso seguir em frente e em um momento virar à esquerda, seguir em frente por mais um bom pedaço e chego na vila dos Pankararés, que tomam conta do cânion. Na teoria é simples. 

Os primeiros quilômetros são feitos com muito cuidado. A estrada está boa, a máquina passou recentemente por aqui, para melhorar o caminho para o pessoal chegar à festa dos Pankararés que aconteceu algumas semanas antes. Mas já têm alguns sulcos, eu escolho um e vou acelerando de forma constante. A roda dianteira da moto escorrega a todo momento e paro para ajustar o curso. Muitos desses solavancos quase me jogam no chão, mas consigo segurar. Em alguns momentos que sai é a roda traseira. E eu vou seguindo desse jeito, hora ou outra a moto escorregando e eu parando para ajustar o curso. Muitas vezes coloco o pé no chão para dar equilíbrio e não precisar parar.

Com os quilômetros acumulando começo a pegar um pouco do jeito e andar um pouco mais rápido. Consigo andar a 30/35 km/h. Me sinto voando na areia. Chego a uma subida e vejo que ainda tenho muito que aprender sobre areia. A subida é complicada e a moto perde a roda da frente mais que o normal. Mas vou seguindo.

Areia no caminho
Caminho de areia pura
Vista de cima do cânion
Vista de cima do cânion
Formação do cânion
Formação do cânion

Faço a curva a esquerda e continuo seguindo a grande reta. Já mais acostumado consigo segurar a moto no equilíbrio, sem parar tanto. Quando menos espero chego em uma descida e começo a ver à minha direita a Igreja do povoado. Essa descida é bem complicada, com muita areia e muitas marcas de pneu, que dificultam a passagem. Entro na vila e fico um pouco confuso do caminho a seguir. Pergunto a uma pessoa que me indica a casa que fica no fim da vila, onde começa a trilha para o cânion. O Abdiel já tinha se comunicado com eles na noite anterior avisando que eu ia, por isso eles já estavam me esperando. Troco algumas palavras com a família que está por ali, e eles me indicam o filho para me acompanhar no percurso. 

Os Pankararés tomam conta do cânion. Lá vive a arara-azul de Lear, uma espécie que é endêmica da região e só é encontrada no raso da Catarina. Para isso eles pedem uma contribuição para poder manter o local. E indicam um guia local para acompanhar dentro do cânion.

Entro no cânion seguindo o guia, que vai em uma outra moto mais a frente. Primeiro nos dirigimos por uma estrada à esquerda, após um grande descampado só de areia, e começamos a subir na borda do cânion. A areia fica mais fofa e começo a sofrer um pouco mais. O cansaço já começa a bater também. Sigo o meu guia aos trancos e barrancos. Paramos em um local e caminhamos até a borda do cânion. O visual é de perder o fôlego. Duas paredes de arenito com vegetação de caatinga e uma pequena estradinha correndo toda a extensão. Olhando para a esquerda vemos o dedos de deus, uma formação rochosa, que fica no meio do cânion e tem o formato de um dedo. Contemplamos por um momento e começamos a voltar para, finalmente, seguir por baixo.

Formações
Formações

Descemos o caminho e voltamos ao descampado inicial, viramos à esquerda novamente e seguimos. O caminho vai intercalando entre vegetação baixa e algumas árvores. De repente, começam a aparecer paredes dos dois lados e estamos dentro do cânion. A areia fofa começa a incomodar mais e vou seguindo. A moto derrapa bastante e toda hora eu paro, sigo bem devagar. Depois de alguns quilômetros o cânion se abre um pouco e começo a ver, bem à frente, uma agulha bem no meio do cânion. Chego até ela e paro a moto, com dificuldade, a areia é bem fofa e é difícil encontrar uma posição. O Cânion continua seguindo, mas esse é o meu ponto de parada. 

Salto da moto e fico alguns minutos contemplando a beleza do lugar. Um lugar árido, mas cheio de vida. Com muito pouca chuva, mas com bastante verde. Enquanto pesquisava eu li que o Raso da Catarina não é um deserto por 2 tecnicalidades: 1 – Tem vegetação, a caatinga é maravilhosa; 2 – Por aqui chove 200mm ao ano a mais do que precisa para ser considerado deserto. Mas eu olho e vejo deserto, apesar do verde. Sinto uma ótima sensação me inundando por estar aqui. A apreensão era grande, a ansiedade enorme e o medo quase paralisante. Nesse momento pude descarregar essa emoção toda, pois consegui chegar.

Peguei o café da manhã que tinha sido preparado na pousada e compartilhei com o meu guia. Comemos os sanduíches e as tapiocas. Conversamos, apreciamos e começamos a voltar.

Subo na moto e começo a seguir o caminho de volta até a vila. Sinto o cansaço, a moto derrapa cada vez mais. Volto observando esse cânion imponente pela periferia das minhas retinas. De repente, a moto derrapa e eu caio para a esquerda. Fico um tempo ali caído, tiro a perna debaixo da moto e a levanto. Vejo se está tudo certo e o manicoto do retrovisor esquerdo está quebrado, mas não está solto. Subo na moto, ligo e continuo o caminho. Chego a vila, agradeço a companhia do meu guia, encho minha garrafa de água com um pouco de água cedida por ele e sigo para voltar à pousada.

Já no começo, em frente a igreja, tem uma ladeira de areia que está bem marcada com diversas marcas de pneu. Sofro um pouco para vencer a ladeira. Subo e desço a moto na ladeira algumas vezes. Depois de algumas tentativas sigo o caminho. Me sinto bem confiante e vou um pouco mais rápido. A areia na estrada não é tão fofa quanto no cânion e me viro bem melhor. Estou sem preocupação com o terreno e somente acelerando a moto, sozinho, no meio do nada. A sensação é incrível de estar aqui, rodando por estas estradas. Local onde Lampião, Maria Bonita e seu bando se escondiam, onde tiveram diversas batalhas com as volantes. Local onde passou o rally dos sertões. Local que é considerado o atacama brasileiro.

Caminho do cânion
Caminho do cânion
Formação do cânion
Formação do cânion

Estou acelerando e sentindo o vento. A temperatura está alta, o sol já está alto. Sinto o guidão tremer e caio para a direita. Estou no chão, pela segunda vez. Respiro para me acalmar. Tento entender como posso tirar a perna debaixo da moto. Pondero e entendo que preciso levantá-la, o suficiente para tirar a perna e conseguir me levantar. Entendo a gravidade da situação, só tem eu para me ajudar. Pego fôlego e empurro com as duas mãos o banco da moto para cima,e ela se mexe um pouco. Tento novamente, dessa vez com todas as forças que tenho e a pedaleira se move um pouco e consigo puxar a perna. Solto a moto novamente. 

Agora a perna está solta e consigo ir dando trancos, puxando ela para fora. Finalmente estou livre e consigo me levantar. Bebo água, a boca está seca devido a tensão. Levanto a moto com dificuldade, o cansaço já está forte. Ligo e vejo que tudo está certo novamente. Subo na moto e continuo voltando. Dessa vez em estado meditativo, totalmente imerso no presente, sentindo cada solavanco que sofro na areia. Sem perder a atenção no que estou fazendo por nenhum minuto, vejo o muro da pousada. 

Entro pelo portão, paro a moto, sento na cadeira em frente ao quarto onde estou e bebo bastante água. Penso em tudo o que vivi essa manhã e percebo que poucas coisas que fiz em minha vida foram tão difíceis. Mas me sinto feliz, por ter conseguido controlar a mente e ter conseguido ter essa experiência maravilhosa.

Lembro que em um dos vídeos que assisti sobre andar de moto no raso eu ouvi a frase: “Raso da Catarina de moto é onde a criança chora e a mãe não vê”. Dessa vez eu consigo entender a profundidade de uma frase tão simples. Com o corpo relaxado tomo um banho e me preparo para seguir viagem. 

***

Sem dúvida foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Eu já tinha andado na areia, mas não por tanto tempo e em areia tão fofa. O que me ajudou foi que a minha moto é uma Teneré 250, que é leve e não fica tão complicado de rodar. Com uma moto mais pesada deve ser bem difícil, se tiver pouca experiência. Eu cheguei na pousada Aconchego do Raso no dia anterior e salvei o dia todo seguinte para fazer a trilha e a Baixa do Chico. Acabei fazendo até rápido, saí por volta de 06h da pousada e já estava de volta às 11:00h.

Não é um lugar fácil de rodar, mas é um lugar incrível que vale cada momento passado por lá.

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Leonardo

Sou um amante da Natureza. Especialista em expedições de múltiplos dias com autonomia. Sou pai de 2 crianças e, em família, vivemos do lado de fora. Já pedalei 760km na Estrada Real, cruzei a Cordilheira dos Andes e o Atacama de moto, caminhei mais de 200km no Nepal, viajei de carro com a família pela América do Sul e dormi muitas noites em barraca, ao ar livre. Também remo de Caiaque, SUP ou Canoa em Paraty. Aqui compartilho o que aprendi sobre viver do lado de fora com autonomia total.

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