Logo que eu mudei para Paraty, eu lembro de ir até a praia do pontal e seguir pelo caminho de pedras que tem separando o canal da praia. Estava lá com a família e vi um pai com a filha em um caiaque, desses de pesca, e pensei: “Ainda vou fazer isso”. Era só uma travessia do canal para a praia, mas era algo que eu sempre quis fazer e não tive a oportunidade.
O tempo foi passando e comecei a remar na canoa havaiana. Íamos visitando cada ilha da baía de Paraty e eu sempre mirava em uma mais longe. Depois eu comprei um SUP e comecei a remar por toda a baía. Até para fora dela, ia para Paraty Mirim e fazia algumas travessias.



Com o tempo passando e a confiança aumentando, eu comecei a pensar em remar de Trindade até Paraty de SUP e essa vontade foi crescendo. Seria uma travessia longa, de quase 70km em um SUP, mas eu estava animado. E passar pela temida ponta da juatinga era algo que povoava meu imaginário.
A ponta da juatinga é o fim de uma península que está exposta a fortes correntes marítimas, ventos intensos e mar agitado. Por ser mais remota, é complicado passar algum aperto por ali.
Um uma remada de canoa que estava fazendo pela manhã, falei sobre essa vontade com mais 2 amigos, o Davog e o Marcelo, eles gostaram da ideia, mas falaram que não conseguiriam fazer de SUP, pois não tinham experiência, mas que fariam de caiaque.
Eu não tinha experiência com caiaque, mas topei fazer de caiaque para ter companhia. Para ganhar um pouco de experiência, conversamos com o Michael, da paraty explorer, que tem bastante experiência e ele criou uma espécie de curso para nos passar tudo que precisávamos para poder fazer uma travessia deste tipo.
Fizemos o curso e estávamos confiantes em fazer a travessia. E marcamos a data para Janeiro de 2023.Faríamos a travessia em 3 dias. Saindo de Trindade e remando até Martins de Sá no primeiro dia. Depois de Martins de Sá até o Pouso da Cajaíba, contornando a ponta da Juatinga e no último dia, remaríamos até a praia do Jabaquara em Paraty.
Conforme a data foi se aproximando, tivemos alguns problemas logísticos, ficamos sem ter lugar onde deixar os caiaques em Trindade e precisaríamos levar os caiaques e no mesmo dia partir. Mas não tínhamos carros suficientes para fazer o traslado. Acabamos mudando o roteiro para sair do Jabaquara e voltar para o Jabaquara.
Mudamos o roteiro e decidimos fazer do Jabaquara ao pouso da cajaíba no primeiro dia, no segundo, sair do pouco, fazer a ponta da Juatinga até a Sumaca, voltar pela ponta da Juantinga e seguir para o Mamanguá e no terceiro dia Sair do Mamanguá e voltar para o Jabaquara. Este roteiro não mudaria muito a quilometragem diária e fechamos nele. Na última hora conversamos com mais um amigo, o Edu, e ele decidiu seguir com a gente.
A travessia foi incrível e passamos 2 vezes pela temida ponta da Juatinga.




Dados da Expedição
Distância: 60 km
Data de Início: 20/06/2022
Duração: 12 dias
Veículo: Yamaha Teneré 250
Lugares Visitados: 3
Integrantes: 1
Itinerário
Rota
Praia do pontal → Praia do Baré → Praia da Lula → Ilha dos cocos → Praia Secreta da Cajaíba → Pouso da Cajaíba → Ponta da Juatinga → Sumaca → Ponta da Juatinga → Praia do Engenho (Mamanguá) → Praia do Cruzeiro (Mamanguá) → Praia Vermelha → Praia do pontal
Destaques
01 Golfinhos na saída
Saímos do pontal e seguimos para a ponta grossa, saindo da baía de Paraty. Ao chegar na ponta grossa, um grupo de 5 ou 6 golfinhos apareceu e ficou alguns minutos mergulhando em volta da gente. Eles nos seguiram até depois da entrada de Paraty Mirim.
Foi incrível nadar junto com esses animais e nós não poderíamos ter ficado mais animados.
02 Ilha dos Cocos
A ilha dos cocos em Paraty dispensa apresentações. Com suas águas transparentes, sempre faz a viagem de qualquer pessoa que passa por ela. No momento que passamos a água estava incrivelmente transparente para variar. E não consigo deixar de mencionar.
03 Pouso da Cajaíba
Chegar à praia do pouso da Cajaíba foi muito emblemático, eu nunca tinha remado tão para fora da baía de Paraty. e já sentir o peso do mar, sem as restrições da baía foi incrível. Comemoramos bastante o feito e nos sentimos muito satisfeitos de concluir a primeira etapa da travessia sem nenhum problema.
04 Ponta da Juatinga
No segundo dia, saímos do pouso em direção à praia da Sumaca, para chegar nela precisaríamos atravessar a temida ponta da Juatinga. Saímos bem apreensivos, sem saber o que encontraríamos. Mas escolhemos uma ótima janela de tempo e quando passamos em direção a Sumaca nem sentimos que estávamos passando por um lugar complicado. O mar estava super calmo. Comemoramos ao ver o farol da Juatinga e seguimos sem muita dificuldade até a praia da Sumaca.
Após curtirmos a praia da Sumaca, começamos nossa volta. Já não foi tão simples quanto a ida. O mar já demonstrava que tem a capacidade de ficar complicado por ali. Já tinha uma ondulação entrando e batendo na pedra, fazendo um pouco de balanço. Nada que pudesse tirar o bom humor de todos que estavam por ali, mas já sentimos mais o mar.
05 Mamanguá
Depois que cruzamos a Juatinga, começamos a travessia da baía da Cajaíba, pegamos uma corrente contra que fez com que não saíssemos do lugar. Cada parada que fazíamos voltávamos alguns metros e tínhamos que fazer esforço novamente. Foi um processo lento e cansativo.
Quando, finalmente, cruzamos a Cajaíba e entramos no mamanguá, comemoramos. Tínhamos saído da influência do mar aberto e estávamos entrando em águas abrigadas novamente. Como estávamos cansados, parávamos em cada recanto para descansar e sair um pouco do caiaque. Não foi um trecho fácil, até a praia do Cruzeiro, mas fomos felizes e satisfeitos por termos cruzado a ponta da Juatinga e estarmos no Mamanguá, remando em um dos lugares mais lindos da costa do Brasil.
O terceiro dia foi sem muita coisa nova. Remamos em lugares já conhecidos, apenas voltando para casa. Entrar na baía de Paraty, sempre deixa uma sensação confusa. Sabemos que estamos perto de casa, mas ainda precisamos vencer uma boa remada monótona até chegar na praia. Vamos apenas remando, olhando o horizonte e vendo as montanhas aumentando, esperando a nossa chegada.




Desafios & Aprendizados
Muita atenção à previsão do tempo
Nós esperamos uma semana, em relação ao que havíamos marcado como data de saída. A previsão do tempo não estava boa. Mas quase fomos com uma previsão ruim. Tinha um cara muito famoso no meio do caiaque, que faz diversas expedições pagas que ia fazer, praticamente, o mesmo trajeto que a gente no mesmo final de semana. Nós olhávamos a previsão e estava muito ruim e ele não mudava a data. E nós ficávamos pensando se devíamos seguir ele, já que ele tinha muita experiência, ou se devíamos seguir o nosso instinto.
Acabamos seguindo nosso instinto. Adiamos por uma semana, pegamos um tempo incrível, quase sem perturbações, até meio monótono. Mas soubemos que a expedição deste cara experiente teve diversos problemas, a ponta da juatinga estava super complicada. Diversos caiaques precisaram ser rebocados, muitas pessoas passaram sufoco.
Se não tivéssemos seguido o que achávamos, teríamos passado o mesmo aperto junto com eles. Por isso, é muito importante seguir o próprio instinto e o instinto do grupo.
Respeito aos seus limites
Por ser a primeira expedição de muitos de nós, fizemos tudo com cautela. Abordamos todas as situações com extrema calma e sempre com consciência da nossa experiência. Acho que o sucesso dessa expedição esteve muito aliado com essa mentalidade. De saber que era nossa primeira experiência, e de não querer dar passos maiores que as pernas.
Conhecendo nossos limites, temos mais chance de êxito e de ter uma experiência agradável. Minha abordagem em todas as expedições que faço é essa: calma e tranquilidade.
Quando fazemos desse jeito, temos uma experiência agradável e que nos faz querer voltar de novo.
É preciso estar pronto para uma viagem tão longa
Paraty é um lugar muito turístico. No verão, época que fomos, o canal do lado direito da baía vira uma avenida com dezenas de barcos levando turistas para conhecer as belezas da região. Isto é maravilhoso! Eu acho que todo mundo deveria conhecer este pedaço incrível do litoral brasileiro. Na minha opinião, o pedaço mais bonito do Brasil.
Mas todo esse movimento torna a movimentação de pequenas embarcações – como SUPs, caiaques ou canoas havaianas – um pouco complicada. É preciso muita atenção no horário de pico, quando remamos para o litoral sul.
Não é impossível, mas atenção tem que ser redobrada, ainda mais no verão







