— Oi, tudo bem? Como você chama?
— Tudo certo, meu nome é Leonardo. E o seu?
— Eu sou o Marcos. E o que você faz?
— Eu sou Analista de Sistemas.
Essa pergunta. “O que você faz?”, a resposta esperada é sempre a minha profissão. Como se isso fosse o todo. Como se fosse eu. Mas essa não é a verdade. Não inteira, pelo menos. Eu faço um monte de coisa, eu sou um monte de coisa. O meu trabalho não me define. Por mais que eu passe a maior parte do meu tempo exercendo minha profissão ela é só uma das coisas que me compõem. E a parte que me traz a sobrevivência. Ela é super importante, mas todo o resto também é.
— Eu remo, corro, pedalo, caminho, ando de moto. Eu acordo cedo para poder ver o sol nascer no mar ou para tomar um banho de cachoeira antes de sentar para trabalhar. Depois disso eu sento e trabalho programando software. É isso que eu faço
Essa resposta não tem todas as minhas dimensões, mas representa melhor quem eu sou e o que eu faço. Mas essa resposta não é a esperada socialmente. A resposta esperada sempre vai ser: “Analista de sistemas”.
O que você quer ser quando crescer?
Para as crianças é mais forte ainda. Desde cedo já direcionamos personalidades a profissões. Quando fazemos essa pergunta esperamos respostas com “médico”, “advogado”, “jornalista”. A própria pergunta já direciona para uma profissão
Somos treinados a pensar na vida adulta como sendo nossa profissão. Transformamos toda nossa identidade nela. E ser adulto e responsável é prosperar nesse papel social de trabalho que desempenhamos. Todo o resto fica como secundário, sem muita importância. Sua vontade de aprender um instrumento fica para depois, porque sempre precisamos estudar mais para crescer na nossa profissão. Aquela vontade de aprender a desenhar nunca pode acontecer, pois sempre estamos ocupados fazendo aquela hora extra para poder crescer profissionalmente.
Muitos jovens adultos completam a escola e ainda não têm muita ideia do que querem fazer. E eu falo por mim. Nós colocamos uma pressão muito grande em pessoas muito jovens para decidir o que elas vão fazer por toda sua vida adulta.
Aprendemos a organizar quem somos em torno do papel que desempenhamos.
O papel social que desempenho faz parte de quem eu sou. Só não é tudo que eu sou.
Vamos nos encaixando
Ao longo da nossa vida vamos entrando em caixas. Temos a caixa profissional, a caixa de pai, a caixa de mãe, a caixa de marido, de esposa, de adulto, da faixa etária. Todas essas caixas trazem algumas regras que devem ser seguidas. Vêm acompanhadas de deveres e expectativas.
No meu trabalho eu não posso agir como ajo numa mesa de bar com meus amigos. Como pai, existem responsabilidades que não tenho quando estou sozinho numa viagem. Como marido, minhas decisões não dizem respeito apenas a mim. Essas caixas não são ruins. Muitas delas são consequência das relações que escolhemos construir.
O problema não é entrar nelas. É esquecer que conseguimos sair de uma e entrar em outra.
Uma caixa dominante
Quando começamos a nos identificar somente com uma das caixas, e passamos a ser ela, nos limitamos. As coisas entram em desequilíbrio.
Quando não sabemos mais quem somos sem o nosso cargo, quando achamos que determinadas experiências não são para nós porque tivemos filhos, ou porque estamos mais velhos, tudo isso é sinal de desequilíbrio.
E já passei por isso, por um período eu senti que minha vida era meu trabalho, e todo o resto da minha vida foi deixado de lado, minha esposa, meus filhos e foi um período terrível para mim. Foi preciso eu sair do meu emprego, não encostar em um computador por um ano para que eu pudesse fazer as pazes comigo mesmo.
Nesse tempo eu resgatei diversas partes – caixas – de mim que estavam empilhadas embaixo da caixa da profissão.
O problema não era ter uma caixa profissional. Eu precisava dela. Eu gostava dela. O problema é que ela cresceu demais e passou a ocupar tanto espaço que o resto todo foi deixado de lado.
Hoje eu trabalho com a mesma coisa que trabalhava, mas minha relação com todas as caixas mudou. Hoje todas elas têm espaço dentro de mim.
Aprender a navegar
Cada momento da vida pede atenção a determinadas coisas e essas coisas precisam ocupar um pouco mais de espaço. Se você tem um filho pequeno, é natural que ele precise de bastante atenção sua. Em outros momentos o trabalho vai exigir mais de você. Às vezes alguma outra coisa, como uma expedição para a Puna, vai ocupar bastante espaço na cabeça.
Acredito que o mais importante é ter consciência do que está ocupando mais espaço agora e não perder de vista aquilo que também faz parte de mim e que não quero deixar soterrado.
Depois do episódio do meu burnout, eu entendi que precisava navegar melhor entre as caixas. E hoje, eu deixo mais soltas as caixas que ocupam mais espaço, mas estou sempre atento para não deixar as outras partes serem ofuscadas por aquela que exige mais atenção naquele momento. E hoje eu busco dar atenção a outras coisas que são parte de mim além do trabalho: Estar com minha família, estar em contato com a natureza, fazer minhas viagens. Tudo isso tem que ocupar um pouco de espaço dentro de mim.
E eu não faço essas outras atividades para poder trabalhar melhor, melhorar minha performance. Eu acordo antes do sol para remar, pedalar, ou qualquer outra atividade porque eu quero, porque fazem parte de mim e porque eu gosto. No fim acho que elas me ajudam a trabalhar melhor, mas não faço com essa finalidade.
Elas só estão presentes na minha vida porque eu quero vivê-las, elas fazem parte de mim, assim como meu trabalho.
Do lado de fora
Essa era a parte que faltava quando decidi sair do meu emprego lá atrás. Eu sempre tive uma vida ligada à natureza. Sempre viajei para experimentar a natureza. Sempre levei meus filhos para ambientes naturais. E ali, naquele momento da vida, isso estava se perdendo. E com isso, eu estava me perdendo. Não porque eu não gostava do meu trabalho, mas porque eu deixei ele ocupar tanto espaço que acabei me tornando ele.
Quando eu faço uma expedição de caiaque, uma remada de SUP para ver o sol nascer, ou uma viagem de moto, eu não estou fugindo da minha vida. Isso também é minha vida.
Hoje eu trabalho com a mesma coisa que sempre fiz, eu gosto. O que mudou foi a minha perspectiva de como fazer isso.
Talvez quando me perguntarem o que faço eu continue respondendo “analista de sistemas”, porque é mais fácil. O importante é que eu não confunda mais essa resposta com quem eu sou por inteiro.
Se você tivesse que responder de verdade o que faz da vida, o que responderia além da sua profissão?









